- Eu me senti mal por muito tempo.
- Eu sei.
- Você sabe ? Como assim ?
- Seu sorriso era fraco, você estava fraca. Parecia outra pessoa, parecia que vivia em outro fuso horário, outro tempo, desde que a gente terminou. De um jeito depressivo demais.
Eu não conseguia entender. Não conseguia assimilar as palavras que aquela boca proferia. Por alguns segundos eu simplesmente não conseguia me mexer, não conseguia esboçar qualquer tipo de reação. De repente uma força cheia de raiva pulsou dentro de mim. Eu mal sentia meus pés se movendo, só enxergava os borrões que passavam por mim, alguns espantados, outros rindo, mas, no momento, eu não conseguia me importar de forma alguma.
Corri, corri, corri. Não sabia pra onde e não fazia idéia de como ainda não tinha me estabacado no chão de concreto. Mas sabia muito bem o por quê: nunca fui boa em controlar minha raiva, ou melhor, controlar o que falo quando estou com raiva. E naquele momento, naquela terça-feira calorenta que tinha tudo pra ser insignificante, o ódio me cegava como nunca e eu tentava com todas as forças afastar uma vontade quase assassina que se apossou de mim.
Aquilo não podia estar acontecendo. Esperava que fosse um pesadelo, que eu poderia acordar a qualquer momento, mas não. Se tratando de mim, eu tive até sorte, tive relativa sorte de ter fugido naquele momento, de não ter ficado pra ouvir mais – mais palavras que iriam abrir todas as feridas que custaram a cicatrizar, que iriam me quebrar por inteira.
E durante todo o tempo que me refugiei na fuga muitas coisas passaram pela minha cabeça, mas uma se destacava dentre todas: ele não se importava. Ele podia dizer o que fosse, poderia me dar um milhão de motivos para fazê-lo se preocupar comigo, mas eu saberei até o fim que é mentira, que ele é tão dissimulado que consegue acreditar até no que sabe que não sente. Depois de um término doloroso, depois de tanto tempo me sentindo despedaçada, depois de tantas lágrimas, depois de tantos textos repletos de rancor e tristeza, depois de ver o desespero instalado nos meus olhos – portas da minha alma – todos os dias; ele tem a coragem de dizer que sabia, que percebia a dor que eu sentia.
Pode ser irracional, pode ser egoísta. Porém ele, de qualquer forma, não tinha esse direito. Não tinha o direito de dizer assim, com a maior naturalidade, que tinha noção do meu estado, que tinha conhecimento de que me proporcionou tanto sofrimento. Me sentia confusa sobre o por quê de sentir tanta raiva dessa invasão, não sabia se era certo nem errado. Mas tinha uma certeza: acabou comigo.
Foi quando parei que senti algo vibrando no bolso do meu jeans: meu celular. O peguei e notei várias mensagens preocupadas da minha melhor amiga – a que, por muitas vezes, foi a única a realmente se importar. Digitei um breve “conseguindo me acalmar, estou bem” e enviei. Ela entenderia, entenderia que eu queria ficar sozinha.
Sozinha. Essa palavra me assustara tanto nesse último mês, eu a sentia pairar sobre mim a cada milésimo de segundo, como um fantasma, não me deixando respirar, atrapalhando meu raciocínio e, sempre que possível, me levando às lágrimas. Só que agora essa assombração tinha desaparecido e ficar sozinha, sem ninguém ao redor, me parecia incrivelmente agradável. Tal sensação me fez me sentir eu de novo, me trouxe de volta a minha antiga personalidade, ainda melancólica e rancorosa, mas com um certo brilho no olhar que eu sentia se instalando novamente em mim.
Respirei fundo e peguei o primeiro ônibus com destino perto ao meu quarto, perto ao meu mundinho. Eu sabia que lá pela meia-noite eu iria sucumbir, iria chorar os restos do meu ódio, ia pensar nele, ia lembrar de todo meu sofrimento, dos sonos perturbados, da falta de vontade de viver, da tristeza que eu me tornei. Só que dessa vez iria dar um fim a tudo lembrando de como eu costumava ser cinco meses atrás: curiosa, boba, insegura de um jeito confiante demais e arrogante o suficiente pra saber a hora certa de deixar a ilusão de lado.